O dia em que quase perdi o navio

O dia em que quase perdi o navio

Tudo aconteceu durante um dos meus cruzeiros de grupo pelo Golfo Pérsico, uma região que adoro, com paisagens surpreendentes, contrastes culturais fascinantes e, claro, muito calor… exceto naquele dia. Estávamos no Bahrein e, surpreendentemente, chovia. Não era uma chuvinha simpática para refrescar. Não. Era daquelas chuvas que parecem ter vindo de propósito só para baralhar os planos de quem quer explorar em terra firme.

Tínhamos decidido contratar um recetivo local para nos levar a conhecer alguns pontos turísticos que tínhamos identificado de interesse, mas eu tinha um objetivo claro na cabeça: levar o grupo para ver uma panorâmica e fotografar a King Fahd Causeway, aquela ponte imponente que liga o Bahrein à Arábia Saudita. Eu já conhecia um spot incrível para fotos e como estava-mos com tempo achei que seria um bom plano para o final de viagem.

Agora vem a parte divertida — ou não tão divertida na altura. O motorista falava muito, mas muito mal inglês. E eu, confiando na arte de me fazer entender por gestos, expliquei algo como “Let’s see the bridge, King Fahd, I know a good place for photo in Al Budaiya beach.” O senhor, simpático e sorridente, acenou com entusiasmo… e arrancou.

Sabem quando pedimos um café, curto, em chávena fria… e o empregado “só ouve” café. Foi o que aconteceu. O motorista só ouviu… bridge! Passados uns minutos comecei a estranhar. O tal spot era ali perto e nós estávamos a andar… e andar… em direção à ponte. A certa altura vejo a placa: Welcome to the King Fahd Causeway. E percebo: o homem achou que íamos atravessar a ponte para a Arábia Saudita!

Respirei fundo. Tentei explicar que não, que era só para ver, não atravessar. Mas ele, confiante, dizia “Yes yes, I know!”. Eu olhava para o relógio, o tempo a voar, e a chuva a piorar tudo com engarrafamentos e má visibilidade.

A ponte tem 25 quilómetros. VINTE E CINCO QUILÓMETROS!?. E eu quase a desesperar. Quando dei por mim, estávamos a meio da ponte, no meio do Golfo, com o tempo de regressar ao navio a aproximar-se perigosamente. Confesso: suei. E não foi do calor.

Foram conversas desencontradas, muitos gestos, até que o motorista percebeu finalmente que tínhamos que voltar para o porto… imediatamente. A nossa sorte é que foi possível inverter o sentido da marcha a meio da ponte, mas foi aí que começou o verdadeiro rally. Ele transformou-se num piloto de Fórmula 1, e eu num navegador de rali, com o telefone dele na mão, pois o homem só me pedia: “Lots of rain. Film, film please, to show my wife… lots of rain”. Controlar o tempo e rezar para não haver ou mais trânsito era o que me restava…

Chegámos literalmente na hora. Saímos do autocarro rapidamente e dirigimo-nos ao navio. O segurança olhou para nós com cara de “estava a ver que ficavam…” Fui o último do grupo a entrar e só consegui sorrir, ofegante, encharcado e perguntei-lhe? How many missing? Ele respondeu: Ten… Now only nine! Ao que eu respondi: You saw it! I wasn’t the last.??

Moral da história?

?? Nunca assumas que o motorista percebeu tudo o que disseste (mesmo que ele diga que sim).

?? Evita planos ambiciosos nos dias em que o navio parte mais cedo.

?? E, se puderes, sai sempre com margem de segurança — duas horas antes da hora limite de embarque é o ideal.

Hoje, rio-me. Foi só mais uma aventura para contar, das muitas que tenho vivido. Mas naquele momento? Estava a imaginar como iria levar o grupo para a paragem seguinte.

Viajar é mesmo isto: histórias, peripécias e… finais felizes. ??

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Marco Lima ©CRUISELOVERS.PT

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Marco Carlino de Lima

Especialista em Cruzeiros & Editor-Chefe

“Apaixonado pela experiência humana por trás de cada viagem, Marco Lima soma mais de duas décadas no setor dos cruzeiros e, dedica-se a desmistificar o mundo dos cruzeiros com partilhas autênticas, dicas práticas e uma paixão contagiante pelo oceano.”

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